Fé, esportes e religião

4 de maio de 2018

Por Victor Tavares
Especial para o Social1

O mundo evolui rapidamente. É preciso estar atento para não se tornar uma “carta fora do baralho” ou uma simples “figurinha repetida”. Esta indagação pode ser aplicada facilmente ao mundo corporativo, mas e ao mundo da fé? Todos os dias ocorrem mudanças, renovações, aprimoramento de antigos costumes e a evolução do relacionamento humano. Manter-se atualizado é algo essencial a um ser humano. Neste contexto, a figura de líderes religiosos – intocáveis e inalcançáveis, até pouco tempo – se reinventam e buscam uma maior proximidade com seus fiéis.

“É importante se mostrar como humano de fato, como alguém que é falho, como todos os outros, mas que aceitou o chamado do Deus da vida para cuidar de suas ovelhas feridas”. “Quanto mais as pessoas percebem que estão diante de alguém tão ‘gente’ como eles, mais abrem espaço para o relacionamento e a proximidade em suas vidas”. É o que dizem, respectivamente, dois jovens líderes religiosos dos dias de hoje: o padre Deyvson Soares e o pastor Gabriel Uchoa.

Deyvson Soares dos Santos, ou simplesmente padre Deyvson, como é chamado por seus paroquianos, tem 40 anos e é natural de Jaboatão dos Guararapes. Ordenado sacerdote em 2010, celebra neste ano oito anos de missão junto aos seus filhos, como carinhosamente chama os seus fiéis. Por ter sido ordenado a pouco tempo, Deyvson é considerado um padre “jovem” no meio católico e por isso faz parte da nova geração de sacerdotes.

Perguntado sobre a desconfiança por parte de fiéis mais velhos, por exemplo, a respeito de sua juventude, o padre diz que é natural, mas que aos poucos a barreira é quebrada. “É difícil ser observado como alguém que não pode errar, que às vezes é entendido como alguém que sabe tudo, outras vezes é subestimado por ser muito novo e que nada sabe. Mas, ao mesmo tempo, entendo como algo que foi construído ao longo do tempo e que naturalmente vai se desconstruindo”, disse.

Com formação Salesiana, da Ordem de Dom Bosco, que tem no cuidado da juventude a sua missão, o padre diz que se enxerga nos jovens. “Vejo na juventude um lugar precioso de experiência com Deus. Trabalhar com jovens para mim traz para o meu sacerdócio dinamismo, atualização e vigor para trabalhar pelo Reino de Deus. Convivo com jovens que me convocam a uma vida santa e de doação ao próximo. Identificação seria uma boa palavra para definir o trabalho com eles”.

Gabriel Moreira Uchôa Cavalcanti, 29 Anos, é pastor e assistente executivo do bispo da Diocese Anglicana do Recife. Nascido no Recife, Gabriel, assim como Deyvson, vive os desafios de ser um líder jovem em pleno século 21. “A grande missão não é diferente do que seria tempos atrás. Cada geração tem seus desafios próprios e acredito que o nosso papel como líderes cristãos é mostrar que as palavras que estão na Bíblia são verdades em nossas vidas”, disse Gabriel, ordenado em janeiro deste ano de 2018.

Segundo o jovem pastor, os fiéis mais “experientes” de sua paróquia apoiam o seu ministério, e não existe desconfiança por parte deles. “Não há desconfiança pelos mais velhos, muitos que hoje são os mais velhos na paróquia onde compartilho a vida de Cristo, me viram crescer e são apoiadores do meu ministério”, afirmou.

“Minha relação com a juventude é verdadeira e íntima, afinal, as pessoas que convivo são meus amigos e o que mais quero é cuidar de suas vidas e mostrar o amor de Deus, assim como também sou cuidado pelos meus pastores. Eu sou um desses jovens e sei que dificuldades estão ao nosso redor. Não posso não me enxergar nela, caso contrário estaria apenas vivendo uma história em quadrinhos” comentou Gabriel sobre sua relação com os jovens.

ESPORTES E VIDA CRISTÃ
Apesar das diferenças entre a denominação religiosa de Deyvson e Gabriel, ambos possuem algo em comum, além da vida consagrada a Jesus Cristo. Os dois, padre e pastor, são apaixonados pelo esportes e praticantes de atividades físicas.

“Amo atividade física. É uma dimensão que coopera muito para o cuidado de si e para o equilíbrio emocional, uma vez que como padre estamos sempre acolhendo dramas alheios, devemos saber administrar os nossos. Faço academia e pedalo com frequência”, afirmou, dizendo que atualmente tenta conciliar a prática esportiva com a administração da Paróquia de Casa Forte, da qual assumiu a administração após o falecimento do padre Edwaldo Gomes em julho de 2017.

Já Gabriel é um apaixonado pelo surfe. “O esporte entrou na minha vida quando ainda era criança, pratico e amo estar na água”. “Não é fácil conciliar o surfe no Recife com as atividades da igreja, porém fica mais fácil por que alguns dos membros da PAES (Paróquia Anglicana do Espírito Santo) também são praticantes do esporte, então vamos juntos às praias”, disse.

Sobre a recepção dos fiéis quando encontram o seu líder praticando alguma atividade física, as respostas foram bem parecidas. “Não há nenhum estranhamento, pelo contrário, isso só mostra ainda mais que nossa vida, como pastores, é tão real quanto a de qualquer um dos membros da paróquia”, disse Gabriel. Para Deyvson, seus fiéis incentivam que o padre pratique esportes. “Meu povo me incentiva, não percebo estranhamento, muito pelo contrário. Creio que na condição de padre devemos também convencer pelo exemplo que atividade física é o cuidado de si, da vida que é o Dom mais precioso”, afirmou.

O padre ainda revela uma situação um tanto engraçada que já passou quando foi encontrado por uma fiel na academia. “Encontrar paroquianos em academia é algo comum e não cria nenhum espanto – em mim pelo menos. Um dia, estava na academia e uma senhora veio conferir se eu era mesmo o padre Deyvson de Casa Forte, e quando eu confirmei ela disse: ‘Meu Deus eu não sabia como o senhor era do pescoço pra baixo’. Quase caí da esteira”, lembrou o padre, rindo da situação inusitada.

Para Gabriel, ver em seu líder uma pessoa tão ‘gente como a gente’ aproxima os fiéis do seu pastor. “Com certeza aproxima. Quanto mais as pessoas percebem que estão diante de alguém tão “gente” como eles, mais abrem espaço para o relacionamento e a proximidade em suas vidas. Graças a Deus e a liderança da PAES, no seu jeito de nos liderar, nunca deixaram que esse tabu fosse criado dentro do nosso ambiente de convívio. Líder é alguém que deve lhe inspirar a fazer algo pelo exemplo, então se queremos que os membros cuidem de sua saúde, do seu corpo, que é templo do Espírito Santo, devemos dar exemplo e fazer o mesmo”, acrescentou.

Sobre o mesmo aspecto, padre Deyvson acredita que “é importante se mostrar como humano de fato, não criar uma imagem de perfeição”. “Mas eu também entendo que, culturalmente falando, muitas pessoas não nos vêem para além das celebrações e sacristias. Somos homens chamados pelo Deus da vida para pastorear ovelhas e o cuidado de si é base para cuidar do outro”, concluiu o padre.



MATÉRIA VEICULADA NO DIA 03/05/2018 NO BLOG SOCIAL1. Acesse o link http://blogs.ne10.uol.com.br/social1/2018/05/03/fe-esportes-e-os-desafios-dos-lideres-religiosos-de-hoje/